O Centro Solar dos Encantamentos de Circe

Circe em sua terceira conjuração planetária declara a sua aluna, Moeris, que ela os “perseguirá” ainda mais, enquanto volta sua atenção para a Lua chamando novamente a atenção do Sol. Seu encantamento começa da seguinte maneira:


“Novamente, a ti estendo minhas mãos, Sol. Eis que estou em minha totalidade presente para você. Peço que revele seus leões, seus linces, cabras, babuínos, seus cavalos, seus bezerros, serpentes, elefantes e outros tipos de animais que lhe pertence” Ela depois inclui os corvos, corvos e gafanhotos, sapos e baleias, e se dirige a ele como Apolo durante o dia e Dionísio à noite, e conclui, honrando-o: “Você é o príncipe do mundo, olho do céu, espelho da natureza, arquiteto da alma do universo.”


Quando ela passa dessa saudação ao Sol para saudar a Lua, ela o faz como a “assistente” da Lua e a chama pelos nomes de Hecate, Lucina, Diana, como a ama de leite dos seres vivos, como a corajosa caçadora e rainha de céu, mãe do amanhecer, senhora e guardiã do mar, dos bosques e florestas, consorte de Apolo, domadora do inferno e a mais poderosa promotora dos demônios.


É bem curioso o que ela faz aqui, e a provocação pode se encontrar ao dar ao Sol atributos que não são comumente associados ao Sol, como babuínos, gafanhotos, corvos, sapos, elefantes e baleias. Ela pode fazê-lo como um ato que o Sol, sendo o arquiteto da alma do universo, também possui essas qualidades de uma maneira solar específica. Por exemplo: um animal como o corvo, comumente associado à regência de Saturno, nos convidaria a repensar o que poderia ser um ‘corvo solar’, tanto para o espírito convocado quanto para a feiticeira. Isto força uma pausa onde um novo vínculo é formado entre o corvo e a energia solar, o que expande a alma do Sol por ser um convite a esta expansão de domínio.


Circe dava uma importância tão grande ao Sol por percebê-lo como o olho direito do Criador, ou ainda, como um dos luminares do céu que não era apenas seu pai, mas também seu centro cósmico.


A escolha das palavras “se erguem ao pai” e outras partes da Tábua Esmeralda receberam uma interpretação gnóstica valentiniana que vê o mundo material como inferior ao mundo celestial em um sentido categórico e absoluto. Isso não estaria correlacionado com a filosofia de Bruno, pois ele estaria mais próximo das primeiras linhas de William Blake no poema Augúrios da Inocência:


Ver um mundo em um grão de areia

E um céu numa flor selvagem

Segurar o Infinito na palma da sua mão

E a Eternidade em uma hora


Tratava-se mais de alcançar um entendimento adequado da ordem do cosmos e, através disso, permitir vários alinhamentos ou vínculos tanto com animais, minerais e vegetais quanto com espírito, fenômeno, imagens e ideias, a fim de se trabalhar na própria deificação. É basicamente sobre tornar-se um com o Criador, um deus dentro da esfera que entendemos ser Deus, uma mônada dentro de um conjunto de mônadas.


Nesta esfera de deus, existe uma força vital que pulsa e flui constantemente e é o ‘oceano’ de todos os tipos de poderes ocultos, forças e mistérios. É com esses mistérios que precisamos criar vínculos para alcançar uma ascensão. Portanto, não é que o mundo material seja “inferior” ao celestial de forma qualitativa e categórica; mas de se entender que o divino não é apenas revelado no mundo material, que o divino É incorporado no material. No entanto, em nosso mundo material o divino está fundido com outros elementos e assim é difícil perceber claramente o que é o quê.


Isso significa que o homem e a mulher da terra devem trabalhar com discernimento e julgamento, sendo precisos em estabelecer os laços entre a alma, os animais, os minerais, as plantas, as imagens, ideias e assim por diante. Estamos falando de toda uma cadeia de imagens e ideias codificadas na percepção pura e clara do Leão ou em um pedaço de ouro que convoca naturalmente todos os outros vínculos. Esses vínculos são estabelecidos em relação às coisas e conceitos de uma manifestação da ideia divina pura. Essas são resumidamente as regras para a criação de deus de Circe, e no caso dela, o objetivo é tornar-se o ‘espelho da natureza’, arquiteta da alma, ‘olho do céu’, e a filha do Sol velada em carne santificada.

Imagem: sciencesource

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