A morte vem colher sua paga a terra – e tão certamente quanto colhe a do rei entre os homens, colhe a do santo e do pecador, o cético ou o crente. Eu e você. Assim, povos nascem e morrem por certezas espirituais além do véu, e, confortados nestas certezas, vivem no céu ou inferno encarnado na terra.
Deus e sua hierarquia de anjos em seus coros harmônicos, reis e rainhas élficas e suas cortes aristocráticas, hostes ancestrais em seus castelos dourados, mundos inferiores e suas “arqui-bestas”, deuses iluminadores de caminhos sombrios, devoradores de luz... todas as formas de fé trazem este conforto de que há algo além. Saltam o abismo os que podem vislumbrar seu próprio éden, castelo, ilha ou inferno. É matéria de fé e condução de vida, cada qual com sua prova, real ou imaginária, ou idéia, justificativa racional de como funcionam as coisas.
Mas se correto está o axioma “assim na terra, como no céu” - expresso de uma forma ou de outra – se escaparia da lenda se não refletisse ideais de Destino, Vida e Morte. Este é mitema dos mitemas, o ponto central de todos os mitos ancestrais, a partícula essencial, o suspense pelo Mistério do amanhã.
Os parênteses de hoje se fazem no Big Bang e o Big Crunch, com seu cínico erguer de ombros à nossa ínfima existência no panorama geral do Universo – criado por um Deus-Ciência. Queimem as bruxas, os loucos e profetas! Certamente todos estão errados e há somente... escuridão.
Sejam estes ou outros, os ardentes seguidores querem provar meu erro e refletem em meu espelho nada menos que a desesperança, a fumaça negra em luz difusa, e onde vejo a distorção, entendo que para alguns a vida não tem encanto, nem essência, nem magia. E eu só os vejo porque os entendo. Já percorri estas sombrias estradas até enxergar ao meu próprio reflexo, e entender que se há o buraco e há o monte, há a força que moveu a terra.
Cada um se agarra à sua própria verdade como âncora para a jornada. Afinal, é preciso acreditar que exista uma verdade, construir nosso senso de justiça e manter-nos coerentes – na medida do possível, com nosso panorama e com a nossa grande ordem. Somos frágeis humanos a cutucar com nossos dedos trêmulos o traseiro do diabo, e na mesma medida em que seremos medidos amanhã. Beleza das belezas é a grande comédia do livre-arbítrio quando confrontada com o grande equilíbrio das coisas. É aqui que o trapaceiro desempenha seu melhor papel. Toda carta é marcada.
Mas menor que todos, há sempre o bode expiatório que por intrincados fios do Destino sangra na mão de algum algoz cheio de justiça auto-construída. O algoz sempre se esquece do vício do jogo.
Impermeável à riqueza do mito se torna aquele que perde o senso da própria mortalidade, aprendendo a temer como jamais temeu sua própria “humanidade”. E a sede de viver se torna fome de ter, de nunca faltar nada. Assim morre-se bem confortável, em um leito de ouro e um travesseiro de remorsos.
O herói oferecia seu pescoço para ser decapitado ante a perda da honra, o rei se colocava à arena ou à beira do penhasco para saciar a fome espiritual de seus deuses e de seu povo. A vítima do sacrifício - ou o bode expiatório - era elevado, santificado e trazido ao seio da divina glória.
A vida mal vivida era destinada aos escravos, doentes e para pessoas de pouco estofo, que não buscavam glórias porque não percebiam a possibilidade da vida ser uma grande aventura, uma jornada humana e uma experiência divina. Aqui, na hora da morte, reis e heróis se encontravam no banquete dos justos e valorosos. Ou não. Afinal, a desonra é um risco tão grande quanto qualquer outro.
Desesperança é algo que se espalha com grandes tentáculos negros em nossos dias. Os filhos dos deuses ou raças sagradas se esqueceram. Para ajudá-los a lembrar existem poucos, em meio a muitos que se ocupam de usurpar tronos dos quais não são herdeiros, aos quais jamais foram ungidos.
Os que se lembram se tornaram invisíveis e mudos diante da mímica divina refletida nas opiniões pessoais do que um deus deve ser. A ilusão se mantém em tal “democracia espiritual”, na utopia surreal onde Vox Populi reina sobre o rei... E cada um reforça a massa do pão, opinião sobre crença, e o mito ascende como o terremoto, sacudindo solos sagrados, devastando castelos e mundos no além, onde vivem nossos ancestrais. O filho não reconhece mais seu pai, e renega sua mãe.
Diga-me, passante, é hora ou não da bruxa, a filha do dragão, lançar sua praga e testar a fibra do herói? É hora ou não de sacrificar mais um rei? Estará ela vertendo veneno ou o necessário e amargo remédio?







