24/05/2013

Amoral

A morte vem colher sua paga a terra – e tão certamente quanto colhe a do rei entre os homens, colhe a do santo e do pecador, o cético ou o crente. Eu e você. Assim, povos nascem e morrem por certezas espirituais além do véu, e, confortados nestas certezas, vivem no céu ou inferno encarnado na terra. 

Deus e sua hierarquia de anjos em seus coros harmônicos, reis e rainhas élficas e suas cortes aristocráticas, hostes ancestrais em seus castelos dourados, mundos inferiores e suas “arqui-bestas”, deuses iluminadores de caminhos sombrios, devoradores de luz... todas as formas de fé trazem este conforto de que há algo além. Saltam o abismo os que podem vislumbrar seu próprio éden, castelo, ilha ou inferno. É matéria de fé e condução de vida, cada qual com sua prova, real ou imaginária, ou idéia, justificativa racional de como funcionam as coisas. 

Mas se correto está o axioma “assim na terra, como no céu” - expresso de uma forma ou de outra – se escaparia da lenda se não refletisse ideais de Destino, Vida e Morte. Este é mitema dos mitemas, o ponto central de todos os mitos ancestrais, a partícula essencial, o suspense pelo Mistério do amanhã. 

Os parênteses de hoje se fazem no Big Bang e o Big Crunch, com seu cínico erguer de ombros à nossa ínfima existência no panorama geral do Universo – criado por um Deus-Ciência. Queimem as bruxas, os loucos e profetas! Certamente todos estão errados e há somente... escuridão. 

Sejam estes ou outros, os ardentes seguidores querem provar meu erro e refletem em meu espelho nada menos que a desesperança, a fumaça negra em luz difusa, e onde vejo a distorção, entendo que para alguns a vida não tem encanto, nem essência, nem magia. E eu só os vejo porque os entendo. Já percorri estas sombrias estradas até enxergar ao meu próprio reflexo, e entender que se há o buraco e há o monte, há a força que moveu a terra. 

Cada um se agarra à sua própria verdade como âncora para a jornada. Afinal, é preciso acreditar que exista uma verdade, construir nosso senso de justiça e manter-nos coerentes – na medida do possível, com nosso panorama e com a nossa grande ordem. Somos frágeis humanos a cutucar com nossos dedos trêmulos o traseiro do diabo, e na mesma medida em que seremos medidos amanhã. Beleza das belezas é a grande comédia do livre-arbítrio quando confrontada com o grande equilíbrio das coisas. É aqui que o trapaceiro desempenha seu melhor papel. Toda carta é marcada. 

 Mas menor que todos, há sempre o bode expiatório que por intrincados fios do Destino sangra na mão de algum algoz cheio de justiça auto-construída. O algoz sempre se esquece do vício do jogo. 

Impermeável à riqueza do mito se torna aquele que perde o senso da própria mortalidade, aprendendo a temer como jamais temeu sua própria “humanidade”. E a sede de viver se torna fome de ter, de nunca faltar nada. Assim morre-se bem confortável, em um leito de ouro e um travesseiro de remorsos. 

O herói oferecia seu pescoço para ser decapitado ante a perda da honra, o rei se colocava à arena ou à beira do penhasco para saciar a fome espiritual de seus deuses e de seu povo. A vítima do sacrifício - ou o bode expiatório - era elevado, santificado e trazido ao seio da divina glória. 

A vida mal vivida era destinada aos escravos, doentes e para pessoas de pouco estofo, que não buscavam glórias porque não percebiam a possibilidade da vida ser uma grande aventura, uma jornada humana e uma experiência divina. Aqui, na hora da morte, reis e heróis se encontravam no banquete dos justos e valorosos. Ou não. Afinal, a desonra é um risco tão grande quanto qualquer outro. 

Desesperança é algo que se espalha com grandes tentáculos negros em nossos dias. Os filhos dos deuses ou raças sagradas se esqueceram. Para ajudá-los a lembrar existem poucos, em meio a muitos que se ocupam de usurpar tronos dos quais não são herdeiros, aos quais jamais foram ungidos. Os que se lembram se tornaram invisíveis e mudos diante da mímica divina refletida nas opiniões pessoais do que um deus deve ser. A ilusão se mantém em tal “democracia espiritual”, na utopia surreal onde Vox Populi reina sobre o rei... E cada um reforça a massa do pão, opinião sobre crença, e o mito ascende como o terremoto, sacudindo solos sagrados, devastando castelos e mundos no além, onde vivem nossos ancestrais. O filho não reconhece mais seu pai, e renega sua mãe. 

Diga-me, passante, é hora ou não da bruxa, a filha do dragão, lançar sua praga e testar a fibra do herói? É hora ou não de sacrificar mais um rei? Estará ela vertendo veneno ou o necessário e amargo remédio?

20/05/2013

Ipoméia e o meu pé de batata doce...

Ipomoea batatas ou Batata Doce
As ipoméias fazem parte de uma vasta família chamada Convolvulaceae, com mais de 500 espécies, onde se inclui também a nossa batata doce (ipomoea batatas). A maioria destas ipoméias é chamada genericamente de “Morning Glories”. Parece que nem todas as ipoméias são alucinógenas – e talvez a batata doce não seja, pois não encontrei relatos -, mas ipoméias de valor etnobotânico (que possuem mais história de uso medicinal ou religioso) são as variedades violacea l. ou purpúrea, a rubrocaerulea e tricolor

Os nomes populares variam de Badhoh negro (zapoteca), badohngás, badungás, bujucillo (espanhóis), la’aja shnash (zapoteca “sementes da virgem”), mantos de cielo (mexicano), ma:sung pahk (mixe “ossos de crianças”), quiebraplato (mexicano), a txha’il (maia, “que vem do rio"). Alguns etnobotânicos declaram que a Ipomea violácea é idêntica à planta enteógena asteca conhecida como tlitliltzin, embora isso não seja um consenso, mesmo com os relatos de Pedro Ponce (Breve Relación de los Dioses y Ritos de la Gentilidade). O uso psicoativo desta planta em adivinhação e rituais de cura tem sido documentado desde o fim do período colonial. A ergolina derivada da planta (lisergamidas) é provavelmente responsável pela atividade enteogênica. Ergina (LSA), conhecida como amida de ácido D-lisérgico e lisergol já foram isolados destas espécies. Estas substâncias podem ser também encontradas em outras plantas de poder como a Argyreia nervosa e no fungo Claviceps purpurea. Sobre este último, só vamos dizer que ele é merecedor de um artigo próprio, desde que foi o responsável pelos famosos casos de “Fogo de Santo Antônio” e dos posteriores estudos da dietilamida de ácido lisérgico, popularmente conhecido como LSD.

Ipomoea Violacea ou Morning Glory
“Todo este imaginário astronômico é relacionado a certos rituais realizados hoje com um sacerdote de alto nível, vestindo uma máscara de jaguar caracterizando o sol, coabita no templo principal com sua irmã-esposa, que veste uma máscara feita de uma ampla goela escancarada de um jaguar negro, caracterizando a lua. O ritual ocorre durante a lua negra e sob a influência de um alucinógeno, provavelmente Morning Glory (Ipomea violácea). Dizem que os jaguares negros (nébbi aváxse) são freqüentes na Colômbia e podem cruzar com jaguares de cores normais; ambos os jaguares, também o negro, têm marcas negras no couro, que em termos Kogi, são marcas do sol e da lua e que de acordo com os sacerdotes, são marcas de incesto. Chamaríamos a eles de maculados. A goela da máscara da noite pode ser interpretada como outra representação do útero devorador da Grande Mãe... Em qualquer evento, o ritual aqui descrito é um de recreação, como declarado claramente pelos Kogi; é a conquista da escuridão... O sacerdote jaguar mítico principal é Kasindúkua, um senhor ou máma com atributos muito ambivalentes. Ele era um curandeiro perito de doenças humanas, e seus objetos de poder principais eram a máscara jaguar e o seixo ou semente azulada chamada nebbis kwái ou testículo de jaguar, que a própria Grande Mãe teria dado a ele, e de um grande número de textos parece que sugerem o uso de drogas alucinógenas. Mas ao colocar a máscara e simultaneamente engolir o 'testículo', a realidade ordinária começava a mudar; a doença se tornava visível aos olhos na forma de besouros pretos e assim, podiam ser destruídos; as mulheres se transformavam em abacaxis melados e caules de milho se transformavam em homens armados” (Reichel-Dolmatoff 1987). 

Ipomoea carnea
Das outras ipoméias com reputação de serem tóxicas, encontramos a australiana Ipomea SP.aff.calobra, que aparentemente contém LSD, a sul-americana Ipomea carnea (também conhecida como fistulosa), que tem o mesmo nome popular sul-americano que a Brugmansia, “borrachera” ou “matacabra”. Parece que nesta variedade as concentrações de alcalóides do tipo “ergot” (o mesmo da cravagem) são bem altos, o que faria nossa plantinha ainda mais potente que a Ipomea violácea. Ela também é usada como inebriante no Equador e Peru. Na Amazônia, ela é temida como venenosa conhecida com nomes como manjorama, canudo ou algodão bravo

A Ipomea involucrata da África Central é usada para estimular efeitos que são usados para tratar vítimas de magia. 

A Ipomea hederata da Ásia, é conhecida como asagau no Japão e é considerada um afrodisíaco. 

A Ipomea muricata, da Índia, é conhecida como lakshmana, e associada a Lakshmi, a deusa da boa fortuna. Diz-se que a raiz fornece nutrição a serpente kundalini imaterial que repousa na região pélvica do baixo abdome e que representa a energia sexual criativa. Todas as partes desta planta possuem mais de 3,7% de ácido behênico, que estimularia o sistema nervoso central e também teria efeitos psicoativos e afrodisíacos. 

A Ipomea murucoides, mexicana, é chamada de “palo bobo” e árvore do morto. É considerada venenosa e causadora de paralisia. Em Sonora, é conhecida como “palo santo”, mas não se pode afirmar se a planta fora ou não usada para propósitos psicoativos. 

A Ipomea nil (ou hederacea) se espalha por todo o mundo, mas dentro os maias ela era usada muito mais para a produção de mel de abelhas, para ser consumido em rituais. Possui em média 0.5% de alcalóides do tipo ergotina. 

Ipomea pes-caprae
A Ipomea pes-caprae (ou brasiliensis Ootstroom) cresce muito nas beiras de praias. Parece que as folhas desta ipoméia são usadas para tratar reumatismo, inflamações e queimaduras de águas-vivas. Elas também possuem efeitos anti-espasmódicos similares aos da papaverina e as sementes possuem alcalóides ergotínicos. Se as sementes são apropriadas para uso psicoativo não se sabe, mas são usadas como ingredientes em beberagens iniciáticas do Candomblé. 

Outros tipos de Ipoméia que contém alcalóides ergotínicos (ou indólicos) e que possivelmente eram ou são usados para propósitos psicoativos são: Ipomoea argyrophylla Vatke, Ipomoea coccinea L., Ipomoea leptophylla Torr, Ipomoea littoralis Blume, Ipomoea médium Choisy, Ipomoea muelleri Benth. 

Efeitos: Comer as sementes das ipoméias listadas acima pode induzir efeitos colaterais profundos como náusea, vômito, indisposição, lassidão. A ingestão de extrato em água fria parece dar menos efeitos colaterais e possuem efeitos alucinógenos distintos que não são exatamente como os produzidos pelo LSD. Visões de pessoas pequeninas parecem ser bem típicas. Os efeitos são narcóticos e hipnóticos como os que os xamãs costumam utilizar em suas jornadas espirituais. As sementes também possuem efeito estimulante ao útero, provavelmente por conta de constituintes que estimulam a ocitocina. 

Conclusão: Algumas destas ipoméias são realmente plantas de poder, mas a quantidade de substâncias alucinógenas pode variar bem de planta para planta, o que a torna um tanto perigosa para experimentações. A preparação e dosagem da Ipomeoa violacea (que é bem menos potente que sua parenta brasileira carnea) é de 20 a 50 sementes para dose baixa, 50 a 150 para dose moderada e de 300 sementes ou mais para alta dose. Somente a dose moderada ou alta permitira se observar efeitos do tipo LSD. Outras fontes sugerem de 5 a 19 gramas de sementes maceradas em água, deixando-se em repouso por trinta minutos.

ADVERTÊNCIA 

As plantas, fungos ou animais discutidos nesta série deste blog são altamente tóxicos. Qualquer experimentação com estes itens são fortemente desencorajados. A autora não assume qualquer responsabilidade pela experimentação e uso incorreto, e os textos não são mais do que "curiosidades etnobotânicas". :)

01/05/2013

Carta do leitor: Consciência ecológica

Aqui em casa é assim que toca o tambor...
“... lembra que você me disse sobre estar alheia a algumas coisas? Como quando você se empenhava em algumas coisas na sua cidade relacionadas ao meio ambiente, mas ninguém dava a mínima. Com você consegue ficar alheia a isso, hoje? isso é mais que uma dúvida, é um conselho que eu quero.” 

Querido amigo, 

"Alheia" é um termo impreciso. Eu me interesso e procuro me manter informada a respeito do meio ambiente sim, da mesma forma em que me informo sobre tudo o que é relevante no mundo e de alguma forma chega ao público. 

O que eu parei mesmo foi de revoltar-me. 

Isso porque eu sentia que a revolta gerava uma grande negatividade em mim, e conseqüentemente, eu passava essa energia para os outros. O que mais me deixava revoltada era o descaso da população ("e eu com isso?"), o derrotismo ("isso foi sempre assim e nunca vai mudar”) e os interesses políticos (quem estava levando vantagem no quê e onde). Num quadro destes qualquer um se revolta não é? 

O que fez com que eu parasse? 

Uma das razões foi a decisão de me aprofundar um pouco mais em história, e isto pode ser chocante como dá base ao derrotismo. Outra foi a percepção de que nem batendo com gato morto o povo acordaria para a realidade apocalíptica do nosso meio ambiente, porque esta realidade é uma daquelas que são muito, muito incômodas. Não só isso foi muito dolorida a descoberta de que não existe justiça brasileira, pelo menos para o povo. Um exemplo disso é ver que minha avó entrou com um processo há muitos e muitos anos contra o governo, ganhou, mas faleceu sem receber, meu pai faleceu sem receber também e começo a pensar que talvez meu filho vá receber este débito do governo, dado o andar das coisas. Agora vai você dever algo ao governo... 

Eu vejo um festival de políticos que foram condenados enchendo ainda mais suas panças e não posso pensar em outro termo que não seja a “impunidade” dos ricos. A Justiça neste país é uma deusa prostituída. Não existem três “poderes” independentes, mas três “podres” que a população sustenta. Esta idéia é só uma ilusão que o povo gosta de acalentar, da mesma forma em que acredita em democracia num país onde a ignorância é superlativa. Se a maioria é ignorante, a minoria informada escolhe sofrer ou tirar proveito. Pobre povo que se transforma em massa de manobra sempre, não importa o que faça desde que o mundo é mundo. 

Mas eu posso despertar e mudar. E eu não preciso que os outros mudem para caber às minhas expectativas. Pessoas em geral só mudam quando a verdade fica tão desconfortável passa a lhe tirar o pão ou o sono. Contudo, posso inspirar. Isso faz parte de quem eu sou, do destino que me empenhei a trilhar.

Percebi que se eu ficasse bem e focada nos meus sonhos e projetos, eu teria muito mais condições para inspirar as pessoas para a mudança através do exemplo. Pessoas são mais receptivas quando visualizam o sucesso dos sonhos do que serem empurradas a lidar com incômodas realidades. Não as culpo por isso, essa é a realidade humana. Vemos dor e sacrifício e corremos disso, já bastando aquela dor e sacrifício que a vida nos impõe. No mais, vale mais o homem que trabalha em seu jardim do que aquele que grita no alto de um palanque. 

Eu procuro não poluir o ambiente (meu carro é uma lixeira ambulante), não desmato as áreas verdes que não uso (como os meus vizinhos paulistas fazem, plantando gramados enormes ou pastos imensos pra deixar uma ou duas vacas por terem “horror” ao mato e aos bichos do mato), não troco de celular a menos que ele não tenha conserto, não sou vítima da moda, reciclo o que dá, vivo uma vida simples sem a grande maioria das parafernálias modernas, exceto as que me trazem mais saúde, maior durabilidade e maior economia. Não meço a riqueza de alguém pelo que ela possui, mas em seu grau de felicidade. Procuro não alimentar o capitalismo selvagem (a raiz da ganância e de toda esta destruição) e busco incentivar meus amigos e clientes a buscarem contato com a Natureza - o mato selvagem (e não a natureza manicurada dos parques), etc. 

Meu papel no mundo é ser feliz e quem sabe, encorajar e inspirar mudanças, mas em nenhum momento acho que devo "militar" - que é algo que fazem os militares e organizações que "seguem" uma inteligência geralmente muito duvidável. That's it. 

Quando parei de ficar revoltada (além de frustrada, amarga e acelerada com toda esta palhaçada), descobri que as pessoas apóiam leis ecológicas que punem os pequenos agricultores. E isso é engraçado, desde que ninguém quer comer os tais transgênicos e estas leis acabam só servindo de papel de bunda destes grandões como a Monsantos da vida, dos grandes latifundiários que controlam o mercado e que podem pagar bem os fiscais – quando precisam. Para mim isso foi a gota d’água. Tem muita gente gritando e agitando bandeiras sem saber o que está rolando, e o que anda faltando é calma e visão. Esses não são fenômenos exclusivos do Brasil, mas de todo o mundo dito “civilizado”. 

Penso que existem duas maneiras de passar por este mundo doido: muito bravo ou muito bem, e tem gente que diz que fica "bem" fazendo militância. Eu duvido. O mundo, no final das contas, sempre reflete a nossa disposição interior, e assim espero que você entenda o meu ceticismo quanto a isso. A melhor mudança, aquela que pode mudar o mundo, caro amigo, começa por você mesmo.

25/04/2013

Desapego

Imagem retirada do link da Lifestyle
Aos 65 anos a nossa amada tiazinha do Rock, Rita Lee, declarou no mês passado para a revista eletrônica Lifestyle"Para envelhecer com dignidade a mulher tem que ter desapego".

Dignidade é uma palavra proveniente do Antigo francês “dignite”, que significava “privilégio, honra”, de “dignus”, “próprio, apropriado”. Eu acredito que Rita Lee, pelo tom da matéria, tenha se referido ao que é apropriado para ela mesma, para sentir-se bem consigo, em aceitação serena. 

Engraçado que li isto somente hoje, logo após lidar com um caso clássico de obsessão amorosa. 

Como o apego pode fazer a alguém achar ou perder a dignidade próprios da sua idade?

Este é um assunto que nos sentimos distanciados até chegarmos àquele momento onde pensamos mais a respeito “do que é apropriado” para os outros além de nós mesmos, ou para a sociedade como um todo. É assim é que prendemos sobre os comportamentos que nos unem e os que nos distanciam, seja pela ação da vida como com o exemplo de outros. 

Esta parada para reflexão pode ocorrer quando temos pouca idade ou muita idade, e pode (deveria) ocorrer com mais frequência, mas ela necessariamente tem que ocorrer. É um reality-check saudável para quando as experiências negativas com pessoas e situações se tornam repetitivas. 

Geralmente pensamos - às vezes até que bem inocentemente - que o erro desta equação não é nossa culpa, mas ao olharmos atentamente poderemos reconhecer a ação de uma “assinatura energética” persistente e não raro, uma “maldição familiar”. 

Em miúdos: tudo tem uma "assinatura energética", o objeto, a natureza (você incluso) e qualquer coisa que se move ou a ação têm suas assinaturas energéticas. Todas elas são válidas e existem porque existe espaço para tudo na Criação, para o doce e para o amargo. 

“Maldição familiar” é um padrão energético herdado, e representa uma falha nas defesas espirituais de uma pessoa, permanecendo como o padrão presente nas gerações. Ela pode fixar vícios e outras formas de escravidão. Um escravo, seja ele de quem for ou do que for, e até por definição, tem pouca vontade própria em alguma área de sua vida. Uma pessoa só é livre quando ela “pode viver sem aquilo”. Um escravo é sempre aquele acorrentado a algo, alguém ou alguma coisa. 

E como demoramos em aprender a nos desapegar! 

Veja só: mesmo sabendo que moramos sobre o ventre macio da terra, que não é nossa por muito tempo, nos penduramos como macacos em galhos: emprego, família, namorados, qualquer droga, qualquer barato, qualquer curtição. A verdade é que fazemos tudo para não sermos confrontados ou lembrados de nossa própria escravidão. 

Um exemplo disso é o nosso apego aos dramas turbulentos da nossa infância mais do que as memórias de paz, felicidade e quietude. Deixamo-nos arrastar pelos traumas como se eles fossem uma tábua de salvação, para "nos permitirmos" no mundo. De repente nos esquecemos dos olhos alegres de meninos que já fomos e nos lembramos da nossa pequenina desgraça... que reservadamente contamos com certo orgulho sádico aos “íntimos”. “Odeio meu pai” e “odeio a minha mãe” (e coisas do tipo) são freqüentes sintomas deste tipo de apego. Temos tanto medo de ficarmos sozinhos no mundo que brigamos uns com os outros... mas será que não há algo errado aqui? Vício de drama existe!

E tem outros ainda. 

Aquele que se acha pobre acha que riqueza está no último celular da moda, enquanto aquele que se acha rico pouco se importa com estas coisas. Medir o grau de riqueza de uma pessoa limitando-se ao que ela possui materialmente é limitar a grandeza da experiência humana. 

Já todos aqueles que precisam e podem produzir algo para se sustentar já devem ter sentido um gosto de padrão circular: aquele onde você corre para viver as expectativas de sucesso dos outros. Geralmente uma nova posição no emprego significa vestir-se melhor, andar com um carro melhor, ter um modelo de celular melhor e viver “condizentemente” com seu novo status social. Mas esqueceram de avisar que não há final de corrida nesta rodinha de hamster. 

Bem, construímos e constituímos uma coletividade cujo vício - um padrão persistente - é a ganância. E como resultado da ganância de uns é que somos ensinados a trabalhar sem pensar em dignidade. Muito menos que a vida é muito curta para gastarmos em empregos que odiamos. 

O jeito é refletirmos se não estamos nos apegando a todo o resto que aquele emprego nos proporciona, o tal do "muito além do que precisamos", e se não estamos viciados naquele modelo de “ter”, onde já estamos nos submetendo e vivendo cheios de ódio por fazer o que não gostamos. 

E os viciados em aprovação? Estes vivem para preencher as expectativas de alguém, do pai, da mãe, do namorado, do chefe, do pastor, etc. - qualquer figura que tenha lhe saltado como “modelo de vida” ou "herói". Às vezes isso se dá sem critério algum, quando se busca preencher o que os “modelos sociais” indicam: case-se, reproduza-se e morra (mesmo que comendo merda, mas com cara de satisfeito!).  

Tem gente que se casa para não ficar sozinha, e assim não deveria reclamar mais adiante de sentir-se – no final das contas - só. Estas são as pessoas viciadas em relacionamentos. Mas não é na base do “arranje quem te queira” que conhecemos um companheiro de jornada, especialmente se o plano o inclui no final dela. 

Há ainda aqueles que não querem ficar sozinhos porque isso é socialmente complicado. A decisão de viver bem sem alguém além de você mesmo sempre encontra resistência nos nossos círculos mais íntimos. O casal também enfrenta pressões para reproduzir mesmo que de fato não consigam visualizar qualquer ideal de paraíso trocando fraldas. 

Mas expectativas de quem, mesmo? 

De qual expectativa surgiu a perfeição impossível e castrante da mãe brasileira? De qual expectativa surgiu o unicórnio do marido perfeito? 

Tem gente que tem problemas para se afastar de outros. Ficam tão viciadas que a única obsessão é outro. Estas pessoas vivem a lançar expectativas tão altas para os outros que se os outros decidissem ficar sentiriam-se massacrados sobre o peso delas. Expectativas pesam. E este tormento se instala de tal forma que um quer que vá doer no outro, igualmente ou pior (e ainda tem aqueles que vão fazer macumba para isso!). Elas não conseguem imaginar felicidade de outra forma, e como não são capazes de imaginar, não são capazes de criar. 

Outros são tão obcecados pela “imagem” que vivem em constante paranóia com os outros. Muito freqüentemente, são aqueles que apontam o dedo para ridicularizar os outros, pois é só diminuindo os outros que esta pessoa experimenta grandeza. Isso é vício.

Existem vários outros “vícios” muito desafiadores, muito além dos vícios mais comuns (então cuidado em apontar o dedo à nossa amada titia do Rock!). Os vícios dos quais escrevi - e atente-se que falei de poucos - são os mais perniciosos porque passam despercebidos e são frutos de assinaturas energéticas negativas, que replicam em pessoas e situações negativas. Alguns destes padrões são herdados, outros convidados à nossa vida. 

Cabe a cada um de nós decidir nosso grau de liberdade na vida, o nosso grau de riqueza nesta jornada e se  realmente pertencemos à raça indomada (falar é fácil, mudar de pele é que são outras). A pergunta é se você está agora no seu céu ou no seu inferno, pois o que vem depois é um Grande Mistério. Assim como está na Terra, assim está no Céu, que assim seja!

16/04/2013

Resignada ficava a sua avó! - Segunda Parte.

Adolescentes e jovens são regidas pelos humores do útero – seus pássaros espirituais. Pássaros são “sentimentos viscerais”, amorais, puros e cristalinos. Por isso eles não são limitados ao processo pró-criativo (sexo) físico. Por abrigarem no útero a matéria de onde se manifesta a possibilidade, mulheres criam “energia” transformadora e isso em qualquer sentido da via, às vezes de forma destruidora. Ninguém sai “transpirando sexo pelos poros” como tantos autores (homens, claro) idealizaram suas musas, o que a mulher transpira é o poder de transformar realidades. Ninguém sai “pedindo” para ser atacada. O que a mulher quer é ser amada e respeitada... e sexo é só UM dos processos transformadores. Mulher é pura magia. 

Desde cedo somos todas obrigadas a entender estas “paixões” – porque senão não conviveríamos nem umas com as outras - e isso é uma tarefa árdua e delicada. É isso o que nos faz mais maduras muito mais rapidamente, ao mesmo tempo é isso que nos envelhece rapidamente também. Logo perdemos o viço da juventude, e todos os modelos que assistimos na TV se tornam muito distantes de nós. La na telinha, as “mulheres-liquidificador" surgem como “super-humanas” - modelo de tudo o que é bom e desejável em uma mulher, e o mundo dos homens passou a ficar cada vez mais monocromático, e nós, cada vez mais presas de um modelo impossível. Conclusão disso é que estamos sempre insatisfeitas com a nossa aparência e muitas de nós entraram no jogo da competição: peito artificial, duas horas andando no mesmo lugar para ajeitar a bunda. Não para conquistar um homem, mas para competirmos umas com as outras. Quem sofre mais? É. Somos criadas para nos odiarmos a nós mesmas e a todas as outras. Mas é tão bobo, não é? Todas nós compartilhamos da mesma desesperança e da mesma dor. Usamos sapatos apertados e incômodos porque algum fashionista sem inspiração disse que está na moda, e assumimos que se está na moda não haverá humilhação.

Quem vive o drama de ser uma jovem atraente se vê confrontada com a decisão de virar “mulher-liquidificador”, agressiva sexualmente, ou se esconder para não virar purê de batatas, a passiva. Raras são aquelas que encontram espaço para florescer sem incômodos “tios babões” e de mãos bobas e lerdas dos G. Thomas da vida. 

O que penso sobre este tema tão polêmico:

Até quando o Sr. Thomas subiu um pouco a mão da mesma maneira em que fez com os outros, eu poderia dizer “é licença teatral”. Mas insistir em subir a mão até tocar a vulva, e insistir um pouco mais até que alguém venha intervir só porque a garota “congelou o sorriso” já foi abuso. Ele não pegou nas bolas de ninguém porque a licença teatral não ultrapassou os limites dele. “Putas devem ser tratadas como puta”, eu li de um dos internautas favoráveis da “cena paspalhona” aprontada pelo Sr. Thomas. Mas há alguma errada na teoria desta pessoa... a moça não estava na função de prostituta, mas de apresentadora, e mais, até prostitutas são melhores tratadas (e são pagas) para serem apalpadas. Os bichos escrotos que maltratam as prostitutas só se comportam mal por frustração de não poder tê-las às suas disposições. É novamente uma forma estúpida de estabelecer o seu poder de qualquer jeito. Repare, aquele que maltrata geralmente é o que não pode nem pagar, quanto mais mostrar o que não tem: respeito.

Eu pessoalmente não aprovo os métodos pelos quais os artistas são feitos no Brasil. Muitos deles – homens e mulheres - realmente se prostituem de um jeito ou de outro. Mas dar um exemplo destes foi claramente uma “escorregada na carreira” do Thomas. As mulheres-liquidificador topam o papel de mulher-troféu, conformando com a condição de “casca humana”, mas muitas vezes sem lembrar que um dia elas - também - vão envelhecer. E eu já vi os tristes dias de velhice de quem se apoiou na beleza para estruturar a vida. As passivas se escondem, se enfeiam ou deixam de se cuidar. Melhor não lidar com estas bobagens até que o unicórnio surja. 

Para todas as outras meninas, tidas como menos atraentes tomando a régua do mercado a lhes medir, há a auto-estima para lhes obstruir ou liberar o caminho. Vemo-nas caminhando entre as encruzilhadas, oscilando, em um momento achando que a fórmula é popozão para atrair um “cabra macho” qualquer (qualquer um mesmo) e em outro tentando atrair o unicórnio: alguém que aprecie ao que ela é. Varia com o grau de desesperança. No fundo, toda menina quer mesmo é um companheiro. Sexo é só uma brincadeirinha que os dois fazem. Uma “sacanagenzinha” e não uma competição estúpida. 

Vocês querem fazer diferente? Não. Não é “marchando”, não é neste jogo imbecil de pedir respeito. Ou você tem respeito para dar e vender ou não tem. Os homens estão assim tão malcriados porque todo mundo continua assistindo TV demais. Muita novela, muito drama, muito escândalo, tanto que fica tudo normal. Assuma a responsabilidade e assuma o controle. Está na hora da mulherada colocar todo mundo na mesa para se conhecer melhor, mais intimamente (a-ha, aí está o que os homens mais temem!). O homem só entende o universo feminino se ela parar para mostrar. Tirar o sutiã na Marcha das Vadias é muito menos produtivo, e respeito começa em casa. 

Meninas, vocês passarão anos se recusando a conformar com o mesmo papel que suas mães, mas muito freqüentemente acabarão caindo no maldito padrão e, sem querer, ancorando em portos semelhantes, com versões modernas dos seus pais. O rapaz deve se provar sim. Um pouco de suor é bom! O que é bonito pode ser mostrado, mas elegância é tudo. 

Pais e Mães ensinem seus filhos o respeito ao respeitarem-se mais. Seus filhos já são moços? Deixe-os viver um pouco longe das suas asas para que eles e elas conheçam seus sacrifícios e suas forças. Ensine seus filhos a respeitarem as meninas e as mulheres na família ao tratarem elas como elas merecem ser tratadas por todos os outros homens. Façam de suas filhas garotas especiais, que sabem bem o que querem de um homem e que não precisem de um homem para completá-las. Façam de seus filhos rapazes especiais, que entendam o que é compromisso e que não precisem de uma mulher para completá-los. É possível transformar os relacionamentos baseados no amor, respeito e comunicação. Se uma mulher encontra um parceiro pelo qual é capaz de amar, admirar, respeitar e comunicar-se, ela encontrou seu “unicórnio”. 

Se um homem encontra uma parceira pela qual é capaz de nutrir tudo isso também, ele encontrou mais do que um animal raro, mas a chave para a sua felicidade. A beleza é efêmera, inclusive a dos meninos. Casamento é uma jornada para a vida, na doença e na saúde, na alegria e na tristeza, na juventude e na velhice, na beleza e na feiura!  Assim é bom que os meninos comecem a pensar “será que eu trataria minha mãe assim?”, “será que eu trataria minha irmã assim?” ou ainda “será que gostaria que tratassem minha futura esposa assim?”. Se não, pense nisso: um dia você pode ser pai de uma filha. É este futuro de “cachorras” que você realmente quer para ela? 

Como diz um provérbio ancestral de Ifá:

Olóò ótó ki í léni, Otító dójà ó kùtà, Owó bíntín là n ra èkeé. 

Aqueles que dizem a verdade nunca ganham muito, a verdade vai ao mercado mas nunca é vendida, a mentira vai ao mercado e é vendida bem barato.

A força para mudar está dentro de todos vocês!