O Espírito Doméstico na Tradição Russa



Dedushka! Fique diante de mim!

nem tão pesado, nem tão leve,

tal como a folha de uma árvore

que pousa sob a grama em solo maduro e desmaculado.

Velho! que possa esse chão receber teu mingau em barro,

junto a esses ovos vermelhos que trago como presente.


Risos, pratos que se quebram no armário ou cadeiras que se movem pela sala. Ninguém os vê. Sombras que correm como faísca acesa e seres que montam em nosso peito durante o sono, vemos esporadicamente suas formas com nossos olhos entreabertos; casas são encrustadas de memórias, sentimentos e espíritos. É entre o fogo do fogão que alimentamos a nossa ancestralidade, assim como nossos pequenos demônios domésticos. O domovoy é uma herança Eslava que corre pelo sangue da minha e de diversas outras famílias, e por ser tão pouco conhecido do lado de cá dessa Pindorama, esse texto se faz um sopro de entusiasmo.

“Toda casa possui um domovoy”, crença difundida pelos camponeses e que se mantêm ativa mesmo após a árdua imposição do Cristianismo Ortodoxo em demonizar nossas práticas tradicionais, logo, todas as casas são (ou deveriam ser) habitadas por tais espíritos. Mas quem são eles? De acordo com os relatos orais, o domovoy é um espírito do lar, a quem nós prestamos cultos e honrarias em troca de sua proteção e zelo, é ele o Dedushka (avô) de nossa casa, também chamado por “guardião”, “ele” ou “velho” em alguns lares. Se deve a isso também o fato d’ele ser visto como um ancestral de uma família, ao qual permanece cuidando das próximas gerações. Uma casa sem ele, é um espaço vazio e sujeita a ameaças e desastres, como um lar sem um guardião.


Sua estatura é relatada como a de um menino por volta de 5 anos, e sua aparência é robusta, entroncada, barbudo e com longos pelos (as vezes associado como um lobisomem) - vale lembrar que o cabelo, nas crenças populares, era a concentração de vida e poder mágico, então os cabelos ou pelagem comprida poderiam ser interpretados como prosperidade e riqueza. Mas não podemos limita-lo a só uma única forma. Ele também aparece nas tradições orais com características zoomórficas (gato, cobra, galo, bezerro, porco, cachorro ou um pássaro), antropomórfica (semelhante a um homem) ou até mesmo fitomórfica (toco de uma árvore, vassoura, galho de conífera). A maioria das vezes sua presença é detectada por manifestações de sons - se por nenhuma razão aparente portas batiam, pratos tilintavam ou coisas perdidas eram encontradas, as pessoas diziam que o domovoy estava tramando travessuras.

O Dedushka é a personificação da alma de um ancestral que se tornou a alma da casa e da família, sendo o lar, para nós, considerado um dos primeiros espaços sagrados. Era muito comum entre certas comunidades que se mantivesse prestações de rezas e oferendas na lareira ou até mesmo oferendas sob o forno ou fogão, onde hoje é comumente alimentado; suas preferências eram diversas, ele era visto em porões com saídas para o subsolo, celeiros com suas saídas para todos os cantos e galpão de lenha e de gado, fazendo associações com as crenças de sua proteção da terra e dos animais de uma fazenda, ao qual ele era chamado para barganhar/negociar com os camponeses. Quando as coisas não iam bem, até tentavam ameaça-lo com forcados e chicotes para cumprir o acordo.

É dito que ver um domovoy seria um risco, já que eles possuem conhecimento sobre o futuro, portanto, mortalmente perigoso a um idoso - que seria avisado de não pertencer mais a esse mundo. Tal risco não seria mortal caso fossem vistos por uma criança ou bebês, penso nisso como uma ideia cristianizada que simbolizaria a pureza e pessoas sem pecado. Possuem a perspicácia de imitar a voz humana (e seu choro), assim como de animais ao qual poderia se transfigurar, sendo comum relatos de sua versão como um gato que caminha pela noite (o gato é uma de suas largas associações na cultura tradicional Russa, e também um dos animais mais sacralizados dos espaços domésticos, tal menção – possivelmente – estava ligada ao fato do gato ser uma emanação do ancestral), e se por acaso o ouvir, não responda! O silêncio é um talismã.

Apesar de tudo e com o enfraquecimento da tradição, eles quase não são vistos ou relatados hoje em dia, ainda mais por um adulto. Se nossa relação com o velho fosse boa, ele poderia nos mostrar sonhos proféticos, assim como trançar os cabelos de uma mulher - mostrando que ela o agrada (o domovoy é um espírito brincalhão). A maior parte dos contatos com ele são feitos em situações letárgicas, no limiar entre o chão e o voo, e quando profetiza algo bom, tende a acariciar nossa cabeça com sua mão peluda e ri, mas caso ouvíssemos uivos, gritos e choros, como um lamento que nos faz marejar os olhos, acompanhados de batidas nas janelas, portas ou pratos, o domovoy estaria profetizando a morte próxima de um parente; sendo um momento fúnebre tanto para ele, quanto para nós. A natureza das predições era definida pelos principais eventos do ciclo da vida dessa família.

Manter uma ordem na casa, harmonia entre as pessoas e evitar situações muito turbulentas é um meio de transformar a energia doméstica em benefício a todos que vivem ali, já que discussões, brigas e bagunças atraiam a fúria do velho, punindo um ou mais membros do lar. Apaziguar a fúria de um demônio doméstico nunca foi algo fácil, mas tabaco e bagas de zimbro em pó podem servir de um ótimo defumador para limpar a massa impura. Agrade-o deixando leite, pão com sal polvilhado e alguns botões coloridos perto do seu local de descanso, com certeza o deixará feliz.

Alimentar a sua herança é dar fogo aos teus mortos, é trazer desse véu esquecido saberes que a cada ano tem se perdido, é dar voz aos roucos e silenciados

Vá! Assim como a terra consome o barro, o pão é consumido, assim como a chuva beija a grama, o sal é consumido, Dedushka, venha descansar.