Sobre Conversão e Economia Espiritual

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Acho fascinante ler sobre os santos e profetas, sobre seus relatos de conversão, de como, para eles, não havia outra saída senão se converter à fé cristã e, lógico, para a "igreja certa". Era um perigo torcer para o Papa errado. Às vezes, isso acontecia de forma voluntária e fantástica e, outras vezes, por pura e espontânea pressão, fosse da própria divindade ou da turba ensandecida. Talvez realmente não houvesse muito espaço ou muita opção, afinal, onde os adeptos do Cristo passavam, deixavam um rastro sinistro que cheirava a fumaça de livros, mulheres e quaisquer outras “coisas” que desafiassem o tal do amor cristão.

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Este tipo de narrativa é sempre prontamente repetida pelos fiéis modernos: "o fulano foi à igreja atribulado, cheio de problemas que pareciam não ter qualquer solução e puft... se converteu, se salvou e, de repente, seus problemas cessaram." Ou ainda, "fulano não acreditava muito, foi cismado para o culto, daí puft... começou a falar em línguas. Converteu-se e salvou-se pela glória de ..." Todo mundo acha digno. Eles olham uns para os outros com seus meio-sorrisos, aquele típico de quem sabe muito e revela pouco e, como gatos gordos e satisfeitos, sentem-se renovados em sua fé e aprovados na sua crença. Mais um para o já superpopuloso reino dos escolhidos – mesmo que os escolhidos sejam só os judeus (mas foda-se, tá? Brasileiro é que nem barata e dá em todo lugar!).

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Salvam-se todos, alívio geral, a vida segue... pelo menos até os próximos perrengues. Mas a fé é sempre renovada com outro novo investimento, uma nova oferta pra banheira de ouro do pastor, gasolina pro jatinho e suborno pro político. Emissoras de TV não se compram sozinhas. A prosperidade é o que mais importa, certo? Existe uma certa lógica perversa aí, uma espécie de "economia espiritual" que serve bem para a paz espiritual do populacho: "se eu dei uma grana à igreja, vou ser promovido no meu trabalho". Se não acontece, é fácil arranjar alguma desculpa. Talvez aqueles pensamentos impuros? Vamos dar mais um tempinho pra ver o milagre acontecer. Melhor passar por fiel resignado do que por trouxa.

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A economia espiritual prossegue com o fiel da balança "eu posso até julgar o próximo, mas é só porque estou tentando salvá-lo, tá?". No saldo total, ninguém se acha tão mal assim. E se for, a culpa é do Diabo, talkey? Julgo até a última gota do meu ser, mas só é pecado se eu for julgado. Intenção é asfalto para algum lugar. A minha falta de conversão não foi por falta de oportunidade, nem de estar ali à disposição do Deus cristão, nem dos seus despachantes. Eu já fui uma jovem extremamente curiosa que ia dos terreiros às igrejas de todas as denominações possíveis e imagináveis. Tentei, por anos, fazer a tal da primeira comunhão. Estranhamente, todos os sinais da minha vida apontavam que aquele não era o meu caminho.

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Não me entendam mal, eu achava as igrejas legais. Especialmente as católicas: os prédios eram bonitos, ricamente adornados com obras que inspiravam o senso de sacralidade. As evangélicas eram – e ainda são – uma declaração permanente de falta de senso estético e arquitetônico. Pavorosas, mesmo as mais ricas. Enquanto na católica havia um senso de silenciosa obediência misturado aos cheiros de velas e incensos, na evangélica havia um senso de histeria misturado a cheiro de sovaco. Perdoem-me a franqueza. Mas o que realmente me fez desistir de tentar o cristianismo foi um sentimento estranho... o sentimento de “ausência”.

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Vejam bem. Eu cresci em uma família onde todos, sem exceção, tiveram interações com o mundo dos espíritos. O “sobrenatural”, em casa, era só o “natural” com uma densidade diferente. Nas igrejas, eu não os via tão presentes, mas podia ver seres viventes torturados, chorosos em frente a estátuas frias, procurando um Pai que não estava lá. Aos poucos, a gente vai notando que a tal economia espiritual começa assim, com um pai ausente. Em sua escassez, ele fica caro. E vamos combinar: ele virou a cenoura na frente do focinho do crente.

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O pai escasso é um modelo que se retroalimenta. Ele forma mais pais escassos, daí todo mundo que precisa de um pai presente vai procurar na igreja, onde tem mais do mesmo. No lugar, o povo encontra é um pastor controlador e cheio de perversões e uma comunidade de fiscais do fiofó alheio. Poderia ser cômico se não fosse trágico.

Eu prezo demais minha liberdade de não prestar contas a ninguém. Liberdade pra mim é um prêmio e um custo que sempre estive disposta a arcar. No primeiro palpite sobre como levo a minha vida, eu já ergueria meu dedo ao nariz desses autoproclamados pastores: “Taca a primeira pedra aí safado, que eu sei o que tu anda aprontando!” Voltemos à igreja tidas como idólatras porque têm estátuas (haha). Você quer falar com alguém? Fala com a Maria. Ninguém se importa muito com a Maria, afinal Maria só pôde fugir e chorar nessa história toda, mas ela é fria e frígida – melhor que você, com suas perversões, suas dúvidas e anseios! Ela tá lá resolvida, calma e fria. E não tente falar com Jesus, ele até poderia ajudar, mas ele está lá, preso numa dessas espinhosas encruzilhadas da vida, imóvel e impotente... Como enxergar nexo nessa ausência? E, pior, como aceitar um Deus de um outro povo e de um outro tempo da história da humanidade, e que deixa regras que absolutamente ninguém é capaz de seguir e despachantes tomados pela hipocrisia e pela ganância?

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Em cada esquina, uma igreja. Cada um declarando ter a verdade e a missão, mas ninguém parece ter lido algo além da Bíblia. Ah, a Bíblia, o livro mais editado da história da humanidade! Como poderia ser sagrado se não vem com um manual (escrito pelo cara e não pelos compadres) para explicar o que é literal e o que é simbólico? Não é o Zé das Couves, o espertalhão e ex-presidiário que vai me explicar. Nem o João que não tem nem ideia de que Lutero era um beberrão e muito provavelmente esquizofrênico.

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No final das contas, se ver é crer, se as visões são sagradas, as possessões de espíritos são bem-vindas, por que os cristãos não aceitam quando elas acontecem em outros lugares que não são as suas igrejas? Eles podiam deixar o pessoal em paz... assim, porque, no final das contas, todo mundo quer ficar bem e em paz. Agora, se teu Deus te agita e te deixa irado, se ele faz questão de que eu entre na tua igreja e no teu céu, tem alguma coisa errada aí. No mínimo, é falta de critério. Da minha parte, pecadora que sou, já estou conformada em virar adubo, para alimentar uma planta, que vai servir de comida para outro amaldiçoado que, como eu, sabia demais para ser convencido do contrário.