das Palavras


Um griô contando histórias com um grupo de pessoas.
O griô, um dançarino das palavras.

Profundamente aquém da perfeição, elas. Ainda assim, sendo um verdadeiro milagre elas funcionarem para transmitir ideias objetivas, dado o caos de que se compõem as subjetividades inerentes à rede das nossas comunicações verbais e não-verbais, são uma maravilhosa engenhoca com vida própria, nascida da consciência humana, essas tais palavras.


Pensa bem: tem manga de camisa e manga fruta, e você (quase?) nunca confunde quando estão falando de uma ou de outra. Pensa aí em exemplos semelhantes na sua língua materna e seguramente você encontrará, caso não seja falante de Português. Ou, pra marcar melhor meu lugar de fala (olar, Djamila), caso você não seja, como eu sou, escrevinhante de Português e falante de Pretuguês. É, é bom que assim a gente já traz logo a Lélia também pro assunto.


A maioria das pessoas estudantes de Letras que conheci, eu inclusa, leva um susto nas primeiras aulas de Transcrição Fonética, quando se dá conta de que ninguém, absolutamente ninguém mais nesse solo brasiliano fala como a Gramática Tradicional (vamo de maiúscula que o Cânone adora) manda. Aliás, se é que um dia alguém falou; se é que essa doninha fofa e mandona um dia deixou de ser uma matrona-abstração mezzo necessária, mezzo ordinária, que habita nosso ideal de pureza linguística (cof-cof), e nostalgicamente desabrocha lááá pras bandas do Lácio, aportando assim nobre origem ao idioma.


E bota ninguém aí mesmo, porque ninguém escapa: há resultados de coletas de “amostras de fala” provenientes de vários setores da sociedade, realizadas pelas universidades federais afora. Checa nos laboratórios acadêmicos de Linguística e Análise do Discurso, pra você ver. Mas vá correndo, já que o governo brasileiro tem feito um ótimo trabalho de sucateamento por lá. Talvez porque interesse pouquíssimo ao pensamento pseudo-conservador que governa o país uma pesquisa crítica e científica, materialista mesmo, acerca da Filologia, da história dos idiomas e como eles se desenvolvem. Talvez eles prefiram tratar a Gramática Tradicional como livro sagrado e a entidade Língua Portuguesa como divindade… não seria surpresa alguma, dado o seu histórico apreço por socar na figura inatingível da sacralização (e, portanto, inquestionável) todo tipo de situação nova e imprevisível (e, portanto, deliciosamente cheia de possibilidades) que ameace as suas certezas bem conservadas do que se pode e do que não se pode fazer com a língua.


Tá bom, quem sou eu pra julgar: usem da doninha como melhor lhes aprouver, ao menos enquanto eu não tiver que conviver consigo. Do lado de cá, e para o bem das minhas pesquisas sobre linguagem, preciso tratá-la pelo que ela de fato é: uma ferramenta de análise da língua, e não sua carcereira; uma matriz-controle com a qual comparo o comportamento, através do Tempo e do Espaço, daquela que é a língua de fato, a língua que existe, a língua que não é uma abstração dos literatos e linguistas: a língua falada. De lambuja, a doninha ainda fornece um “padrão formal” à língua, cuja morada ideal será nos documentos escritos naquele idioma, e não na boca de quem por algum motivo acreditou que o ato de falar ou escrever de modo supostamente mais próximo desse padrão conferiria algum tipo de superioridade a alguém. Para também não ser injusta, admito que haveria superioridade caso a intenção fosse disputar uma vaga de trabalho como pessoa digitadora de contratos, por exemplo.


“-Ah, mas eu quero muito falar e escrever segundo a Gramática Tradicional, ela é bonita e confere status e quero e pronto”, dirá alguém. Então prepare-se para estudar: você com certeza está longe de ter a flor do Lácio purinha exalando da goela/guela. Comece deixando de preguiça e parando de dizer que aquilo que está ao redor do milho é “palia”, quando você deveria estar dizendo “palha”. Nossa linguinha brasiliana tem achado muito difícil sustentar o movimento bem mais aberto da língua que é necessário para emitir o já nostálgico som [ʎ] (representado no alfabeto como “lh”), e já o tem substituído por um [li] faz tempo, em todas as regiões do país. Aliás, num movimento bastante parecido com o que as pessoas cariocas fazem ao enfraquecerem a fricativa [s] na palavra “mesmo”, gerando o típico “mermo”, bem como as pessoas cearenses o fazem quando transformam “desde” em “derde”.E por que será isso? Oh céus, estaria o calor dos trópicos nos tornando cada vez mais preguiçosos para falar esse tradicionalíssimo idioma luso?


Ainda bem que (não com a ajuda do presidente, claro) as pesquisas científicas em Linguística, Filologia e Análise do Discurso que abordam a sociedade brasileira já avançaram bastante da virada do século XIX para cá, sofisticando e muito certas visões iluministas, em geral tão cheias de boa vontade cientificista quanto de estrabismo eurocentrista. Por isso e sem entrar em detalhes (porque nosso espaço é curto e minha paciência para a ordenação das fontes e descrição das etapas de pesquisa também o é), vamos logo ao que entendi da História.


Todo idioma falado segue a vida moldando-se de acordo com as influências étnico culturais que recebe, ao longo do Tempo e por seus deslocamentos no Espaço. Já o idioma escrito, a danada da Gramática, vai acompanhando atrás, mantendo pelo máximo de tempo possível a estabilidade do idioma, através das regras de uso, para favorecer a comunicação, o entendimento entre o máximo possível de pessoas falantes; tarefa que já nasce ingrata, dadas as sempre presentes interpretações subjetivas que dão origem a figuras de linguagem dançarinas (metáforas, paródias, eufemismos...), sempre desafiando o escopo de significado de qualquer palavra que seja. Mas a gente segue tentando se comunicar com os idiomas, e é lindo e rico isso, e bora lá, segue o bonde.


Um belo dia, o idioma escrito se percebe caduco, composto por regras que já não dão conta de acompanhar as serelepes mudanças na língua falada, e portanto mais atrapalhando na comunicação do que ajudando; é então que lá vem uma nova Reforma Ortográfica para dar aquela modernizada na doninha. O idioma escrito, então, morre e renasce, para dar conta de continuar acompanhando a pra-sempre-viva-enquanto-dure língua falada; esse ciclo de vida é comum, se não a todas, com certeza à maioria das línguas que contam com uma grafia como forma de expressão alternativa ou complementar à fala.


Ah, e há muitos outros tipos de mudanças serelepes às quais a língua falada está sujeita. Elas podem também resultar de aportes de outras culturas, ou, como prefiro dizer, as mudanças na língua podem nascer de períodos em que duas ou mais línguas fazem amor, daí nascendo idioletos, pidgins, dialetos, crioulidades… A obscena vida vibrante e sempre renovada das línguas, que não querem nem saber se o fato que motivou a relação entre os povos foi a aliança ou a oposição, a conquista ou a derrota, tempos de paz ou de guerra; relacionam-se mesmo, amalgamam-se e transformam-se uma à outra, sujeitas que estão aos ventos da mudança, sem nunca tentar impedir seu fluxo. E ainda se tentassem, fracassariam: línguas não são de ninguém, elas são de todo mundo; usadas e abusadas, não fogem nunca do seu destino de construir pontes, onde (e como) quer que a comunicação se faça necessária. A língua não tem pudor nenhum, ri faceira e multiforme da cara do cafetão que vive a vendê-la em verbetes, negociando-lhe a pureza.


E eis que, depois de tanto desterro e diáspora, daquele caldeirão de afetos comunicantes nascem línguas fragrantes como o Francês, de base latina vulgar, com doces toques de frâncico (idioma dos francos) em todo o âmbito fonético, encimado com notas sulistas de d’oc ou língua occitana. Nasce também, embora em geral gozando de menos prestígio sei-lá-o-por-quê (mentira, sabemos bem), o gonzaliano Pretuguês, de base também latina vulgar, com toques marítimos de rotacismos (a troca de L por R em palavras como “plato”/”prato”, “problema”/”pobrema”) vindos dos hábitos articulatórios dos galegos, e notas apimentadas da articulação em banto e iorubá, que omitem encontros consonantais e enchem a língua de redondinhas vogais: “flor” vira “fulô”, “salvar” vira “salvá” pra depois virar “saravá”.


Gosto mesmo de pensar nas línguas como essa profusão de vida em forma de linguagens humanas, marcadas para sempre pelas relações que se desenvolvem através delas ao longo da sua história… ainda bem que a pesquisa científica me lho permite, e o estudo informal dos sortilégios também. Até porque, estou convencida de que isso sim enriquece uma língua; isso sim a torna cada vez mais mágica, porque mais apta à expressão dos afetos e pensamentos dos indivíduos reais que se utilizam dela para a vida em comunidade, e não só: que a têm como parte constituinte de suas próprias identidades, em perpétua relação multicultural com o mundo e com os outros, quer o dicionário queira, quer não. Afinal, em breve esse livrinho de verbetes terá que se adaptar novamente, mesmo… ele é abstração, é ar puro; mas a língua, ah, a língua, ela é puro pé na terra.

-Vem cá, doninha, chega mais,

sente-se à janela comigo.

Tomaremos chá com leite e veremos juntas a banda da língua passar.

Tá tudo certo, assim: nós aqui, ela acolá...

enquanto a gente preserva, ela lá vai, sem reserva.”



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Fonte da imagem, cuja autoria me é desconhecida: https://oaklandnorth.net/2012/02/29/60-years-after-it-was-built-childrens-fairyland-keeps-the-tradition-of-storytelling-alive/