Você quer Poder ou Mandar?


“Se quiser pôr à prova o caráter de um homem, dê-lhe poder.”

Abraham Lincoln.

Quando estamos trilhando nossa jornada espiritual e escolhermos um determinado coletivo, vamos nos deparar com uma dada forma de organização. Igrejas, templos, terreiros, ordens, covens, etc, não importa de que tipo estamos falando e a tal organização sempre estará lá, e todas essas coletividades, por mais que tenham estruturas muito únicas, terão certas definições de senioridade, linearidade e posição.


Nenhum sistema organizacional é livre de obstáculos, e o propósito deste artigo não é atacar ou defender nenhum desses modelos, mas trazer uma reflexão em torno da ideia de Poder e de Autoridade.


Poucas pessoas param para pensar na diferença entre uma coisa e outra, e muitos confundem uma coisa com a outra. Então trouxe uma tabelinha de comparação para clarear um pouco a questão:

Comparação:

Poder

Autoridade

Significa:

Habilidade, fascínio ou potencial de influenciar e controlar situações e ações alheias.

O direito formal de dar ordens, comandos, e de tomar decisões por outros.

O que é:

É uma caraterística pessoal

É um direito formal, dado por uma hierarquia

Fonte:

Sabedoria, conhecimento, expertise.

Posição, ofício

Hierarquia:

Poder não segue uma hierarquia

Autoridade segue uma hierarquia

Reside em:

Na pessoa

Na designação

Legitimidade:

Não depende

Depende

Parece algo lógico, mas não é assim tão simples quando a gente fala disso em relação à espiritualidade. Frequentemente, quem mantém a "autoridade" é percebido como alguém "poderoso" e, da mesma forma, alguns que mantém a "autoridade" começam a se perceber como "poderosos". E talvez esteja aí o maior obstáculo dos coletivos.


Síndrome de pequeno poder

A Síndrome do pequeno poder descreve os indivíduos que imaginam deter um poder maior do que as outras quando colocadas em posições de autoridade. Esse "poder" geralmente é exercido através do abuso psicológico e às vezes, do abuso físico.


Quem nunca cruzou com aquele segurança de loja que se comportava como policial? Aquele porteiro casca de ferida, o atendente burocrata... todo mundo já passou por alguém assim. Aliás, este tipo de síndrome é bastante comum nos casos de violência doméstica: o marido que se vale de uma imaginária autoridade exerce um "poder" ao espancar a esposa.


Em inglês, esta síndrome é chamada de "síndrome de Napoleão". Um pouco injusto com Napoleão na minha opinião, mas que teria sido cunhada por conta de sua altura, como algo que revela uma pessoa com um grande complexo de inferioridade e baixa autoestima que busca uma compensação de forma agressiva.


A autoridade recebida é aquela que depende de uma dada hierarquia ou linhagem, porém não é raro ver "autoridades" que se desligaram da hierarquia ou linhagem, demonstrando uma atitude paradoxal bastante reveladora sobre o grau de importância daquelas mesmas hierarquias legitimizadoras. Seguem o baile como reis e rainhas, absolutos dentro de suas silenciosas ilegitimidades, inquestionados pelos desatentos. Existem também aqueles que se cobrem com o manto da autoridade que eles mesmos teceram para si, acreditando que isso vá trazer algum poder. Você já reparou que quanto menos poder uma pessoa tem, mais ela gosta de exercê-lo? Ao olharmos para além do brilho da autoridade abusadora, sempre teremos o vislumbre de uma grande fragilidade, de uma fome de aceitação e de uma sede de reconhecimento, e às vezes nem importa se estas necessidades são saciadas pelo medo ou pelo respeito.


Aprender a lidar com a autoridade recebida é sempre uma grande jornada. Quando erramos a mão e confundimos isso com poder, é receita de desastre. Em um determinado momento, essa confusão é desfeita, o abuso fica evidente e a casa cai.


O poder emana da sabedoria, caráter e integridade. O poder é algo que, quando compartilhado, é multiplicado. Quando você dá poder a alguém, você não subtrai de si. Pelo contrário, você fica mais poderoso. Poder é conhecer, antes de tudo, as suas próprias fragilidades e limites. É conhecer o tipo de força que exercemos no mundo, e escolher, todo dia, sermos uma versão melhor de si do que a de ontem.