Você já poliu o seu espelho hoje?


Site novo, vida nova… nome que continua.


O Espelho de Circe está de cara nova, mas sem perder a essência da sua proposta original: um espaço para refletir nossas curiosidades, práticas e questionamentos e com alguma sorte, nos ajudar a integrar as delícias e as tretas que todo esse reflexo traz!


Porque do espelho?


Apesar da palavra “refletir” estar intimamente ligada ao mundo da mente (e do ar), o espelho também mantém relação estreita com o reino das emoções, afinal não foi a água um dos primeiros espelhos onde o humano pode se identificar?


A convivência com o outro não nos trás apenas ideias de como os outros pensam e do que é ou não correto pensar. Muitas vezes esquecemos o óbvio, que a convivência movimenta nossas águas internas, mexe com nossas emoções, com aquele reino bem mais abstrato e desconhecido para o humano racionalizado.


E vale lembrar que só água calma reflete bem. Só ela traz a clareza suficiente para se identificar as formas e poder procurar por suas origens, mas na maioria das vezes estamos bem no meio de um caldeirão fervente.



Essa estranha mania de polir os espelhos alheios…


O ser humano, esse mistério da consciência, apesar do pouco tamanho, às vezes parece ser tão grande que não consegue se perceber sozinho. Da mesma forma que não podemos olhar para o nosso próprio rosto sem a ajuda de um espelho, estamos aqui, tentando olhar na cara um dos outros e sobrevivendo a tortura de lidar com o que encontramos!


Em tempos de turbulências sociais, de ajustes no modo de ser e de valores, existe um movimento forte que busca não só encontrar o acolhimento das mais variadas identidades, mas que também se ocupa em polir as superfícies alheias, para que a imagem que volta seja menos agressiva e mais alinhada com como nos sentimos por dentro.


E temos o direito de fazer isso, mas tenho a impressão que em um movimento ainda novo e um tanto ingênuo, estamos lutando para passar um brilhante e reflexivo verniz social sobre a infantilidade, ignorância e maldade humanas - a dos outros e consequentemente a nossa mesmo.


Talvez a parte da infantilidade que nos caiba é que a gente tem pressa. Pedimos aos outros que tomem cuidado com suas ações e mais cuidado ainda com suas reações, queremos que eles afinem os espelhos porque estamos cansados. Se já nos sentimos transformados, empoderados, complacentes, inteligentes, racionais e generosos, é mais disso que nos interessa receber, é esse o tipo de reflexo que desesperadamente buscamos - indício forte, aliás, de que não estamos tão prontos assim.


Queremos ver o outro transformado, a sociedade inteira mudada para que possamos enfim respirar aliviados.


Mas e quando o outro se mostra pelas rachaduras da camada fina do verniz? Quando alguém dá uma escorregada, faz um comentário torto, o que é que da gente reflete ali? Muitas vezes todo aquele nosso ódio engarrafado. Não que esse ódio não tenha lastro, mas mesmo assim, não faria bem se essa perturbação em si também fosse contabilizada?


E se fizermos um combinado?


A gente gasta mais energia na gente, em lustrar o nosso lado.


É isso que buscamos fazer por aqui, brincar de mundo virado, usar de tudo que a gente tem pra começar por dentro o que queremos ver espelhado.