Somos todos nós


Homem de andando na direção de um penhasco, sobre as núvens.
Foto de Marius Venter no Pexels.

Estamos - ou deveríamos estar praticando o distanciamento há dois anos. O vírus, que nos obriga a vivenciar esse isolamento, meramente manifesta no plano físico todo o isolamento que buscamos - de forma consciente ou não - em planos mental e emocional ao ampliar cada vez mais o abismo entre nós mesmos e o outro, alimentando a polarização.


Nos distanciamos tanto do outro polo que nos desligamos dele. Às vezes, literalmente, com o auxílio de algoritmos, bloqueios e cancelamentos. Tão conectados, e tão desconexos.


Somos todos um. O "UM" pitagórico, só que ao contrário. Ao invés do UM conter todo o universo, somos todos UM porque estamos quase vazios. E cheios de si!


Estamos de saco cheio de si. Nos perdemos em nós mesmos.


Dois anos (e contando) de confinamento, desafiando nossas convicções, nosso instinto de sobrevivência e nossa sanidade. Para se reencontrar, O Louco junta seus pertences mais valiosos em uma trouxa e sai. Se joga no mundo, para se procurar fora de si. A Verdade está lá fora!


E quando digo "lá fora", eu digo "aqui dentro" mesmo, porque eu não sou maluco de sair por aí a toa com esse vírus à solta. Mas fora de mim. No outro!


Parece coisa de biruta, mas - agora - a gente deseja o contato, queremos nos reconectar, a gente anseia pelo outro. Entretanto, como vamos alcançá-lo depois de termos queimado todas as pontes que nos interligavam?


Essa ladainha toda é para demonstrar que UM + UM = DOIS. Dois pólos, o yin e o yang da dualidade primordial, ainda fazem parte do Todo. Dois pontos, que se afastaram tanto a ponto de não serem mais capazes de enxergar a olho nu a linha tênue que - não importa a distância - ainda os conecta.


Somos todos NÓS


Nós em uma fina trama que constitui o nosso delicado tecido social. Infinitamente entrelaçados na corda bamba que O Louco usa para atravessar o abismo, e que a maioria de nós insiste em não enxergar.


Tudo é duplo, tudo tem dois pólos, tudo tem o seu oposto. O igual e o desigual são a mesma coisa. Os extremos se tocam. Todas as verdades são meias-verdades. Todos os paradoxos podem ser reconciliados
- Foto de Marius Venter no Pexels.