Maturidade é o antídoto para a polarização

Crescemos com a ideia de que a nossa força é a da juventude, mas até quando viveremos nesta fase de inconsequência juvenil?


Tá certo. Não podemos nos comparar com qualquer país escandinavo por um sem número de razões: uma democracia jovem demais, um povo inculto demais, um país grande demais... mas o que anda faltando MESMO é maturidade. Já repararam como apesar de abundantes ferramentas de comunicação, entrar em qualquer debate democrático nos dá a sensação de estarmos novamente no ginasial?


Tudo vira xadrez de pombo*, com todo mundo se sentindo frustrado e notando que o país está um pouco mais emburrecido e embrutecido. Esta coisa de chegar até o meio do caminho, de deixar o outro completar sua fala então, nem pensar! Só vale "lacração, dedo no cu e gritaria" (com o perdão da palavra).


Direita e esquerda sofrem crises de identidade constante: o pobre pensando que é classe média e outro pobre pensando que o comunismo seja uma prisão melhor. Este binarismo político só demonstra que de sistema político ninguém parece ter estudado tão a fundo. Lá em cima do sistema, tem o ex-pobre que come farofa na frente das câmeras pra pagar de "simprão" e outro ex-pobre com o visual mais ajeitado para que os outros ricos não o rejeitem na eleição. Ninguém é inocente neste jogo. Nem o povo.


O povo espera que um mito qualquer (seja nomeado como tal ou não) conserte a nação. Olha só, que disparate! O representante espelha justamente o povo e o povo espera que o representante dê um exemplo diferente do próprio povo! Se o povo é corrupto, que tipo de representante terá? E antes que comecemos a descrever nossas nobres condutas, que atire a primeira pedra quem nunca furou fila, quem nunca ultrapassou pela faixa de acostamento, que nunca fez gato de eletricidade, roubou sinal de operadora, ou simplesmente foi espertalhão com alguém. Povo esperto não significa povo inteligente.


Não há como amadurecer se antes não enxergarmos a nossa própria hipocrisia. E sim, crescer dói, amadurecer ainda mais.


Nestes tempos malucos de ânimos alterados, bom senso é tomado como um insulto pessoal. A direita não quer ver o quanto é cafona e a esquerda, vulgar. Dá para entender de onde partem as questões e dá para entender o quão legítimas as reclamações dos dois lados são. O que não dá para entender é como, entre a legítima problemática e a argumentação, a emoção mal resolvida consiga vazar por todos os orifícios temperando tudo com o sabor natural de merda.


Isso me faz chegar a conclusão de que precisamos de mais terapia e menos política na nossas interações.


Todo mundo tem algo a dizer sobre o grande circo que se tornou a política brasileira, e nunca vimos tantos fiscais de fiofó alheio pipocarem nas rodas de conversa. Ninguém quer falar de como superou seus traumas de infância, ou que está com problemas para dormir, ou que sente um certo certo vazio existencial. Está todo mundo com a carcaça dura, bancando gente forte, assertiva e politizada ao mesmo tempo em que vomita caca pela internet para chamar a atenção ao seu "brilhantismo intelectual" cheio de palpites mal informados por fake news.


Mas olhar para dentro é essencial para amadurecer. Encontrar as nossas próprias inconsistências antes de falarmos dos outros é madurecer. Fazer algo a respeito destas nossas inconsistências, apesar das manadas, das modinhas do twitter, das paradas de sucesso instagramáveis e tiktokianas, é essencial não só para a maturidade da humanidade, mas para a nossa própria sanidade.


Se não fosse assim, talvez já tivéssemos maturidade o suficiente para entender o que é a liberdade de expressão, aliás, qualquer liberdade, e não esta que estão falando por aí, que demanda e ameaça ao mesmo tempo, que se grita e se cospe, como se ela não fosse só uma palavra gostosa de se ouvir para encobrir o ranço mal disfarçado em todo o resto do discurso.


Torço para que possamos ser a inspiração dos mandatários, que cuidemos de resolver nossas sexualidades, traumas e rancinhos antes de buscar a liderança. Torço para que possamos aprender a cuidar das nossas vidas, porque se deixarmos com estes caras, vai faltar lata para tanta merda.



Em tempo: meu voto vai para o lado menos inconsistente na narrativa. Se você não sabe quem é, preste mais atenção nas consequências do que eles falam.


* O termo chess pigeon (pombo enxadrista) surgiu de um comentário feito em 2005 na Amazon por Scott D. Weitzenhoffer em sua avaliação do livro "Evolutionism Vs Creationism: An Introduction" de Eugenie Scott: "Debater com criacionistas sobre o tópico evolução é comparado a tentar jogar xadrez com um pombo – ele derruba as peças, defeca no tabuleiro e volta voando pro seu bando para cantar vitória".