Ingratidão

Por que ensino? Porque eu também fui ensinada quando não sabia. Fiz por que quis. É minha natureza. Por que acolho? Porque eu também fui acolhida nas minhas noites frias. Fiz por que quis. É minha natureza. Por que confiei? Porque em mim confiaram mesmo quando eu duvidava de mim mesma. Fiz porque quis. É da minha natureza. Por que compartilho? Porque a mim também é dado todos os dias. Fiz por que quis. É da minha natureza. Eu aprendo todo dia, me sinto aquecida no sorriso de pessoas queridas. Minha verdade brilha estendida ao sol, sobre campos férteis e floridos. Aprendi quando ensinei, me libertei quando confiei, me aqueci quando acolhi e sempre vi o que compartilhei multiplicado. Não ensinei porque esperava o reconhecimento. Não acolhi porque esperava acolhimento. Não confiei por tolice, mas por acreditar em honra. Não compartilhei esperando devolução. Tudo o que fiz foi porque quis e porque esta é a minha natureza. E satisfeita com o que fiz e por quê o fiz, não considero ninguém em dívida comigo. Afinal... O ingrato crê ser uma árvore, mas se descuida das raízes e vê seus frutos murcharem. O ingrato crê que não precisa de ninguém, e lamenta o frio das noites escuras da alma. O ingrato crê nos vultos que espreitam em cada esquina da vida, dormindo em cama de espinhos. O ingrato crê na escassez mais do que na abundância, e assim se mantém cego às oportunidades. Assim, entendo que a ingratidão não é um problema que deva ser carregado às minhas costas como um fardo de tristezas, mas de quem ainda está incapaz de perceber que não existe diferença entre ingratidão e infelicidade. O infeliz é ingrato. O ingrato é infeliz. Foto: Miguel Constantin Montes/Pexels