A morte nossa de cada dia

Nunca fui uma pessoa estudiosa, dessas que gostam de se debruçar sobre temas objetivos, desenvolvidos através de dados estatísticos e pesquisa bibliográfica. Gasto o meu dia com planilhas e conversas, na maior parte das vezes burocráticas, que me impelem a buscar, nas horas vagas, um refúgio pouco iluminado, presente na minha mente cansada e faiscante, a um passo de dar defeito depois de oito horas de trabalho. Optei por escrever sobre a morte, mas prometo não discorrer sobre as diferentes representações do luto entre povos aborígenes ou mesmo o suicídio como um fato social. Quero falar sobre a morte imaterial que desencadeia uma virada de página ou mesmo a sensação de que seríamos tão livres e desimportantes quanto universais, para não dizer eternos.


Um homem condenado à morte é sempre um mote interessante para escritores que concorrem a prêmios. Só que existe a morte como um desfecho – comumente narrada por autores ordinários – e também o desfecho que nos conduz a uma espiral de perdas e ganhos.

‘Pois só a justa medida do tempo dá a justa natureza das coisas’, profetizou Iohanna, o patriarca da família árabe retratada no livro ‘Lavoura Arcaica’. O ‘Homem Comum’, na corrida pelo tempo perdido, estaria buscando a verdade por trás de suas malfadadas relações. O mesmo vale para o personagem de Roth, que diante da morte premente do pai, passa a reconhecer o patrimônio que constitui a sua própria grandeza. Na literatura, a vida inunda a morte, restando ao leitor apenas a beleza. Quisera eu que a vida imitasse a arte, e que toda a morte fosse narrada por um escritor como o Philip Roth, se bem que sempre nos caberá o direito intransferível de virar a página e de morrer para viver de novo dia após dia.


Imagem: Sunset por Bill Mayer

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