A Iniciação


Foi em um barzinho no centro de São Paulo que Ana conheceu um grupo de pessoas que se identificava como “círculo”. Algumas semanas atrás vira através de uma postagem em rede social alguém vestido de preto, um caldeirão em chamas e algumas velas em volta. Mandou mensagem e foi imediatamente convidada para uma reunião do grupo neste barzinho.


Quando chegou, percebeu que todos os jovens se vestiam de preto, usavam pentagrama no pescoço, tinham ‘piercings’ e cabelos coloridos. Imediatamente ficou animada, pois, era o que esperava. Dadas as apresentações, foi convidada a fazer uma iniciação e integrar o grupo de “bruxos”. Tudo que Ana conhecia até então era receitas de internet e pequenas celebrações das estações. Sua iniciação ocorreria dentro de uma semana, durante a lua cheia e para isso se encontrariam em um parque muito famoso na cidade. O combinado era se encontrarem às vinte e três horas, quando o local estaria fechado e para isso pulariam o muro.


Todos começaram a arrumar tudo, circulo, velas e um pequeno caldeirão no meio onde haveria fogo. Pediram que Ana ficasse afastada e vendada, retiraram suas vestes deixando ela completamente nua. Até então ela já vira isso em alguns filmes e achou super normal, porém o medo veio quando sentiu a primeira chicotada em suas pernas, depois nas suas costas e no seu seio, a dor era muito grande, tentou se mexer, porém estava amarrada e então várias e várias chicotadas contra seu corpo que pareciam vir de todos os lados. Quando pararam, seu corpo estava anestesiado de tanta dor. Pegaram seu braço e a ergueram, então foi levada ainda vendada até algum lugar que sentia um calor e um estranho canto começou a ser entoado:


- karazan nibo nino, karazan leturg, karazan astaroth.


E o canto ficava mais forte, mais alto e mais rápido. Quando entendeu que se tratava do nome de um demônio que havia visto na internet, começou a sentir medo. Mas, era tarde, queria que aquilo terminasse. Então, uma dor muito forte que começou no seu seio esquerdo se espalhou por todo seu corpo, seguido de um forte cheiro de carne queimada. Acreditou que fosse desmaiar, porém sentiu que uma lâmina cortava seu braço direito. Quando pensou em gritar, sua boca foi tapada com algo semelhante a uma fita adesiva, pois sentia seus lábios colarem. Imediatamente sentiu uma lágrima escorrer e por sua cabeça, pensamentos conflituosos desenrolavam e arrependeu-se de encontrar com um grupo de estranhos, em um local deserto durante a madrugada. Sentia estar adormecendo devido à dor, mas foi acordada com alguns tapas no rosto e um líquido gelado em seu corpo. Seu braço esquerdo foi também cortado por uma lâmina e logo em seguida ouviu uma sinistra gargalhada, sons de cascos de cavalo e uma estranha oração realizada pelo grupo:


- karazan astaroth! karazan astaroth! karazan astaroth! Grande Senhor de todas as coisas, venha partilhar de nosso círculo, receba essa oferenda!


Sentiu que seus braços eram levantados e ouviu o barulho de água, ou seria seu sangue caindo em um recipiente? Sentia uma língua, lambendo suas feridas e ardia, um forte cheiro de carne podre dominava o ambiente. Tinha a sensação que todos pulavam ao seu redor, queria gritar e chorar, correr, mas não conseguia... Aquela língua começou a percorrer seu corpo e sentia-se humilhada. Então mais uma vez a oração continuou:


- karazan astaroth! karazan astaroth! karazan astaroth! Grande Senhor do vazio. Queremos lhe agradecer por sua presença. Conceda-nos suas bençãos, riquezas e a vontade daqueles que desejamos.


Um grande urro animalesco invadiu todo o ambiente e Ana sentiu uma pancada violenta em sua nuca, seguido de um torpor e seu corpo tombando para o lado.


O sol batia no seu rosto e um cachorro lambia sua boca, a sua volta estava a rua, em frente ao parque estava deitada em um banco. Do outro lado da rua estava um relógio marcando treze horas. Olhou para seus braços e estavam enfaixados com curativos, estava vestida e seu corpo doía de forma assustadora. Com muito esforço conseguiu se sentar, estava sem telefone celular, bolsa de documentos e apenas havia um bilhete.


- Bem-vinda. Você está iniciada!