A Espiritualidade Nem Sempre É Oportuna



Vamos bater um papo chato. Não sei se impulsionada pelo materialismo exacerbado disparado pelo capitalismo impiedoso, a espiritualidade passou a ser vendida como a alternativa saudável, correta e definitiva para a vida dos desiludidos, sofrendo de burnout, fodidos e ferrados em geral (em suma, quase todos). Porém, espiritualidade não é remédio para tudo, e até mesmo ela, em excesso ou se encarada de maneira equivocada, pode envenenar.

Esqueçamos os abusadores, aproveitadores, maníacos, psicopatas e bandidos que assolam as fileiras espirituais. Pensemos juntos numa expressão espiritual legítima e genuína, não importando qual seja sua filosofia. Se tivermos um cenário como esse, temos 50% da equação em um estado ótimo, mas falta olhar para a outra metade. Ou seja, falta olhar para o indivíduo.

Há pessoas que estão passando por problemas sérios de saúde mental e que, com toda a honestidade, não devem ser encorajadas a continuar em um determinado movimento espiritual quando essa participação se agrega aos prejuízos causados pela doença. Por exemplo, alguém que esteja obsessivo e transforme a espiritualidade em uma mania. Nunca é demais pontuar que essa pessoa precisa de todo o auxílio médico e que deve estar em boas condições mentais para que se engaje de maneira sadia com uma espiritualidade.

Aliás, este conselho é universal. A espiritualidade não pode servir como muleta. Ideias como “Minha vida não vai para frente, pois eu não estou indo à Igreja” ou ainda como “Os santos querem minha cabeça e, por isso, eu não tenho paz na vida” são falsas ou, no mínimo, exageros e interpretações absolutamente equivocadas de fenômenos espirituais legítimos. Encarar a espiritualidade com a cabeça no lugar é sempre a melhor abordagem!


Peguemos agora algo mais sutil. Similar, mas mais delicado. Invertamos a lógica – “eu só vou prosperar mais se confiar no universo”. Atenção para a armadilha. Em um mundo complexo, intricado, necessariamente materialista, você acha mesmo que apenas ser mais “devoto” vai te ajudar em tudo? Isso é uma corrupção de uma máxima real que diz (mais ou menos) que quando estamos em conformidade com o todo, estamos em “equilíbrio”. Notem que isso não quer dizer que você vai ganhar mais nada, a mensagem é claramente outra. Será que o seu estado de equilíbrio é o que você realmente quer e que pode sustentar agora? Muitos não pensam nisso – mas às vezes a espiritualidade quando caminha nos conformes é muito devastadora e nem sempre pode ser o melhor momento para acertamos o caminho. Não há nada de errado em querer dar uma parada, pegar um ar. E tomar um fôlego.

Ainda tem mais um recadinho: nem sempre a espiritualidade que você pensa ser legal e boa para você, será realmente. Estamos em tempos nos quais se vende que “todos podem ter tudo” e que “tudo é para todos”. Não é bem assim e precisamos nos conhecer bem para que nos impeçamos de cair em armadilhas ou de insistir em erros. O ego pode nos enganar. Estejamos atentos.

O papo era esse. Rápido e direto. Espero que vocês estejam refletindo. Eu sempre estou pensando nesse ponto.