1 de set de 2014

A liberdade veste couro

"Quereis estudar com proveito? Começai por imolar um a um os mil preconceitos que vos ensinaram" 

Piotr Kropotkin


A tal série existe desde 2008 e a Bandeirantes começou a reprisar no Brasil só agora em 2014. Pelo conteúdo violento - ou pelo seu material explosivo durante este ano difícil para a opinião pública do Governo, ela só passa a partir da meia-noite. Acho que é por isso que não ouvi muita gente falando dela. Mas enfim... zapeando pelo Netflix eu a encontrei e o maridão havia ouvido algo sobre ela, de que era boa e tal. Decidimos então dar a chance usual para séries, e assistir três episódios para avaliar.

O tema não parece estranho. Acho que vários já ouviram falar das “atividades criminosas” dos clubes de motociclistas internacionais como o Hell’s Angels, supostos bad boys que estariam envolvidos em uma série de crimes no mundo todo com acusações pesadas tais como assassinato, tráfico de armas e drogas. Tem gente que assiste porque gosta de motos, tem gente que acaba assistindo porque a série é recheada de ação. Tem gente que deveria assistir para descobrir um mundo novo [ponto].



Trata-se da série Sons of Anarchy (Filhos da Anarquia), criada por Kurt Sutter e produzida pela FX Networks. Fiquei feliz em ver que Ron Perlman estava na série (aquele que interpretou excelentemente o personagem Hellboy). Apesar de tê-lo visto em outros filmes, fiquei perplexa com a atuação brilhante deste ator, bem como as atuações de Maggie Siff (Tara) e Katey Sagal (Gemma), atrizes que nunca havia assistido. Eles são daquele calibre de atores que expressam sem precisar falar. Charlie Hunnam (Jax), que interpreta o personagem principal é um rostinho bonito que ainda não me convenceu como ator no mesmo nível que os outros, embora seja razoável.

O que me motivou a escrever esta resenha foi o fato de ter ficado intrigada com a lógica filosófica e social encontrada por trás da trama: a tremendamente má interpretada idéia de “Anarquismo”. Senti-me uma ignorante depois de uma pesquisa rápida sobre o tema. Cresci ouvindo que Anarquia era algo “tipo assim”, caos total, recusa de seguir ordens e padrões sociais estabelecidos, etc. Mas vamos lá, uma busca rápida sobre Anarquismo e eu dei uma obrigatória olhadinha no artigo do Wikipédia, onde três coisas me chamaram a atenção:

- “De um modo geral, anarquistas são contra qualquer tipo de ordem hierárquica que não seja livremente aceita”

- “Anarquia significa ausência de coerção e não a ausência de ordem”

- “Outro equívoco banal é se considerar anarquia como sendo a ausência de laços de solidariedade (indiferença) entre os homens, quando, em realidade, um dos laços mais valorizados pelos anarquistas é o auxílio mútuo. À ausência de ordem - ideia externa aos princípios anarquistas -, dá-se o nome de 'anomia'."

Pronto, o Wikipédia resumiu tudo o que eu conhecia sobre Anarquia a um terço de página sobre preconceitos. Senti-me uma analfabeta política e filosófica. E no topo disso, percebi que eu poderia me considerar uma anarquista sem saber.

No início da série eu pude logo de cara entender que a estrutura do Moto Clube é a mais próxima de uma matilha, hierárquica e cooperativa. Depois percebi que o Moto Clube tem vários afiliados sob o mesmo nome, mas com lideranças completamente independentes. Pequenas “matilhas” sem um Rei ou Presidente Lobão. Fantástico. Bateu com a minha idéia de que comunidades muito grandes são também sinônimas de grandes desentendimentos e que a corrupção nestas comunidades é também monstruosa, proporcional ao número de habitantes. Uma gangue? Sim. Mas uma gangue que preza o “brains before bullets” (antes o cérebro do que balas), com uma admirável firmeza com que impõe resistência ao "progresso a qualquer custo".

Independente dos dramas centrais onde não faltam sangue e violência, o contexto salta aos olhos e nos conta uma história paralela sobre a filosofia anarquista e a liberdade individual.

Há tanta coisa que poderia ser falada sobre esta série que ela deu origem ao livro (que pretendo ler) Sons of Anarchy and Philosophy: Brains Before Bullets, de George A. Dunn e Jason T. Eberl, numa coleção que faz referência à filosofia dentro da cultura pop. Tenho certeza que o Anarquismo poderia inspirar até mesmo outros filmes e livros, tamanho é o seu potencial individual e social.

De menção especial, creio que seja o papel das mulheres na série, que embora não sejam membros integrantes do moto-clube (tais como outros “clubes do Bolinha” como a Maçonaria tradicional), são personagens absurdamente influentes numa esfera maior, que é a “família”.

Palmas à cultura pop recheada de filosofia útil nestes tempos de tanta porcaria imposta pela nossa corrente mídia nacional (vide novelas da Globo), pelos  nossos políticos e pelo nosso próprio preconceito, que nos cega à possibilidade de existir algo além desta torpe idéia de democracia que se aplica hoje em dia.

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